quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O que eu sinto...

Eu encontro forças quando me sinto fraca,
quando me fraquejam ou quando penso em voltar atrás.

Eu acredito nos meus ideais quando as ilusões parecem bater à porta. Ou quando conheço de perto a dor e a fria tempestade. Ambas querendo cair em mim.

Eu me conheço mais quando confronto a mim mesma. E entendo que sou infinitamente maior do que penso.
Eu sou aquilo que eu sinto.

E o que eu sinto são os meus sonhos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Apenas

Deixou as folhas rabiscadas para depois. Desistiu de tentar entender a realidade bruta e violenta, mas que sempre lhe ensinou tanto, mesmo sabendo que jamais chegará a uma conclusão nata e fria. Ligou aquela voz mais uma vez ao coração triste, vazio, porém atento. A voz permanecia na suavidade como da primeira vez. Mas o aperto do peito aumentava ao passo do tocar de cada nota do violão. Ao passo de cada timbre do piano e da simples voz, que insistia em permanecer ali. Tão unida a um conjunto de sentimentos e dores, saudades e recordações sem nem saber como. A voz cantava e exprimia emoção, sentimentos e pedidos de sinais. Tão perto, mas tão distante. Tão distante esse meu coração, mas almeja estar perto. Esse coração aqui.
A voz está longe. É apenas voz com emoções alheias, exprimidas para o além, para o longe. Nada parece estar tão ligado como antes ou como nunca esteve.

Ligou as luzes, tentou abrir a janela do quarto para ver se o brilho das estrelas que iluminavam aquela noite fria mostravam luz. Pediu resposta ao coração que incansavelmente se derretia a cada nota. Fechou o vidro, e ainda assim deixou as estrelas perceberem a tristeza diante daquela voz. Fechou os olhos, mas não conseguiu compreender ainda assim.

Precisou abrir os olhos. Tentou escrever poesia simples e calada, mas queria escrever tristeza e melodia. O piano voltava. E a voz suave, tão doce como a inocência de uma criança exclamava paixão involuntária. Exclamava pedidos de intensidade sem nem perceber. Sentiu vontade de fugir e abandonar os sentimentos. Quis pedir ao silêncio mais liberdade. Mas o silêncio não a perdoaria. Ela esquecera o que era perdão. Queria expressar suas exclamações e suas perguntas. Mas o medo foi maior que o rompimento com o silêncio. O medo a impediu de correr para longe e arriscar.

Desligou todas as luzes. Fechou a janela. Não se despediu das estrelas. Mas não tentou fechar seu coração e sua emoção irresistivel ao ouvir aqueles sons suaves que a levavam a tantos lugares.

Enxergou a realidade. Ela acordou do sonho. São apenas sons. E talvez, nada mais do que apenas, sonhos também.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Talvez sempre

Eu não sei o que antes ele representava para mim. Talvez mais um no meio de todos os seres que conheci. Talvez um mistério como é até hoje e sempre será. Pois já não quero nada desvendar aqui. E talvez ele fosse um nada, no meio desse vazio incompleto com cheiro de insatisfação. Talvez uma pergunta que questiona o seu próprio significado.

Mas hoje quando ouvi o barulho da chuva me pedindo para ler um texto seu, algo me lembrou que seu inconformismo e sua falta de riso me deixam inquieta e passiva aos seus questionamentos. Quando descobri que sinto sua falta, de alguma forma que ele nunca quisera saber, simplesmente por não se importar; quando curiosamente me peguei pensando na sua forma diferente de ver a vida ou quando quis saber se sua alma estava em choro... percebi que esses encontros comigo mesma soaram como decreto de algo que ainda não sei expressar em palavras. Aliás, eis aí o ponto. Ele parece conhecer esse mistério de escrever. Aliás, palavras possuem real sentido e clara concisão? Diferente de mim, ele chega com ousadia e sem pretensão alguma de nada quando escreve. Eu tenho medo, ele não. A ousadia ele não quer ter, mas involuntariamente tem. A despretensão está escrita no amargo e na imparcialidade dos seus olhos. Na dúvida do seu caminhar e na força das suas palavras.

Lembro que uma vez me perguntei se ele gostara de viver. A resposta chegou súbita dentro de mim: “Ele gosta. Apenas é mais sincero consigo mesmo”. Ele é um mistério para mim e acho que para si. Ele diz que não gostaria de terminar com seu próprio segredo. Ele quer ser o que sempre foi, mas ainda não sabe que já se encontrou pela metade. E isso, meu caro, nesse mundo cão já é um passo até metade do céu.

Ele é o avesso do comum. A surpresa em um dia normal. O pensamento inquieto em situações diferentes. Ele se sente triste e só. Sente-se sem vida. Nota que possui ar demais quando sente-se indefeso à respiração natural. Ele é o silencio e a noite. Sente-se preso. Não sabe nem pelo quê. Ele escreve para elas, para ela. Para o mundo. Para si e para ninguém. Quando ele se olha no espelho, deve ver o retrato de seu mundo interior querendo gritar na palidez de seu rosto sem expressão. Ele é um pensador. Um filósofo mesmo que não saiba. Um largado pelas noites viradas em poemas e desabafos metafóricos. Um amante da bebida, das noites em claro, do rock’n roll e também do vento. Ouve a tempestade como poucos e decifra enigmas da chuva que cai do lado de fora. Do lado de dentro.

Então diga-me, menino, qual o verdadeiro sentido da vida e por que estamos aqui? Para onde vão essas palavras soltas escritas para personagens reais e irreais que me afogam em desentendimento e suaves tombos dentro de mim? Eu, uma mera leitora e voluntária participante das tuas dúvidas. Qual é a tua cara e para onde vão esses sentimentos ofuscados pelo mistério do teu olhar? Para onde vão? Tu és um homem valente e um menino indefeso. Tu és a tempestade triste e a carência de melodia. Tu és o mistério calado e gritante. A praia deserta com areia macia. O jardim sem flores. E o amanhã com chuva na janela do meu quarto que me insiste a te ler mais um pouco. E mesmo que não queiras, que tenhas aversão à atenção de um ser normal, mesmo que já não queiras mais ler essas poucas ou muitas linhas sem sentido, aqui está alguém que descobriu a água na rocha. A vida no final do nada. Eu te descobri mesmo nem te conhecendo. Eu ainda nem te conheço, mesmo que em alguns momentos me sejas previsível. Tu és a estranha vontade de se isolar. O auge da detenção. Tu és o amigo que eu quero ter por seres único. A insignificância que faz falta sem eu nem saber porquê.
O poema que eu quero ler. Acho que sempre.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Existem sons lá fora...

... Faz silêncio aqui.


Faz frio aqui. As luzes estão acesas e eu já me cansei desse episódio escuro dentro de mim que aos poucos se tornou rotina. O coração cheio, a mente vazia. A quantidade exacerbada de exercícios fadigados, o coração querendo entender ou simplesmente bater e o raciocínio precisando funcionar. Tantas palavras que talvez saiam em vão.

O mundo correndo lá fora. E as mesmas palavras de sempre. Liberdade e silêncio? O que eu sei disso tudo? Hoje já nem tem melodia, mesmo que triste, mesmo que sempre presente. O céu chorou ao me ver. E eu chorei quando vi o que fiz de mim mesma e com o próprio céu que sempre chora por mim.

O quarto está vazio e o que resta são os sons do pensamento ao tentar entender o que foi feito do passado melhor. O que virá amanhã. O quê?
Os cães lá fora latem. E eu já não sei o porquê. Parecem querer ser ouvidos. Mas por quem? E quem há de se importar? Talvez eu seja a única que os ouce daqui, mas também não me importo. Fico igual ao mundo dormente. O mundo está dormindo como anjo e a noite grita lá fora junto com os cães. Esses meus olhos entreabertos soam como ser desatento àquilo que é real.

Há lições a fazer. A cada dia elas crescem como a quantidade de questionamentos e temor dentro de mim. Existe algo do outro lado que eu não sei o que é. Existe algo aqui dentro que eu ainda não descobri. Eu me sinto tão livre aqui, mesmo desconhecendo. Tão presa lá, mesmo não concluindo nada.
Passos misteriosos na rua, frustração aqui dentro. Os passos seguem caminhos. O coração chora pelo ser humano. Como a humanidade é estúpida e como essa minha fragilidade não tolera o descaso. Eu mesma já não tolero minha própria fragilidade.

Existe indiferença. Por que diabos eu ainda tento entender? O pensamento triste diz: "Tu destes espaço!". Eu não quero mais pensar. Amanhã tudo volta ao normal e eu também já não quero mais tentar me adaptar. Que se dane o encanto. E toda "melodia" que eu sempre achei encontrar. Pelo menos agora.
Ao menos nessa noite fria.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Traga de volta o meu coração...

O mundo acontecendo lá fora. E eu encontro tantas milhas de sentimentos aqui dentro não querendo calar. Tornam-se opostos ao silêncio pela sensibilidade e profundidade que a alma é capaz de ter quando sem nem esforços tem vontade de gritar.
Eu queria falar do surrealismo bom, fitar meus olhos nas minhas obrigações como aprendiz de algo que eu acredito ser relevante. Exercitar os temas vocálicos tão atrasados. Mandar aqueles tantos textos devidos e burocráticos pras minhas fadigadas disciplinas. Fazer qualquer coisa para sentir-me útil. Mas não quero agora e já nem consigo. Permita-me dizer, não nasci para estar aqui. Sempre me disseram isso, e eu também quis acreditar em mim mesma. Hoje eu sei. O mundo é dos espertos e eu nunca aprendi a ser. Não sei se existe fórmula exata para isso, e também nem sei aonde a encontrar. Mas descobri que não ser esperta é bom. Faz-nos mais humanos e frágeis. Quando nos tornamos frágeis, conseguimos ouvir tanto som desconhecido aos ouvidos espertos, egocêntricos e passageiros. E a realidade vem como nua. Sem vestes. E mesmo que talvez impura, vem genuína de verdade.

O silêncio da noite e as tantas letras aqui presentes. Um coração batendo tentando não entender o estado passageiro da vida. Um coração que acredita na eternidade bem mais do que no próprio mundo cativo e desesperado. Um coração que não quer mais o mundo assim. Nunca quis. Coração abatido, mas não desanimado.
Não me mande ir embora agora. O tic tac do relógio alerta as funções do dia que nasce daqui a pouco. E o que me importa se eu já não sei o que poderá vir quando o sol chegar? Ele pode não brilhar, mas hoje eu já não posso pensar no tão desejado estudo sobre a realidade humana e estúpida. Quero coisas mais reais, preciso. Elas vêm como uma tempestade que chega tão de repente no meio do silêncio. Eu preciso de momentos mais simples.

Certa vez alguém desabafou cantando:“Preciso de algo mais puro do que eu. Do que todo mundo". Sei que existe, está aqui dentro, bem pertinho de mim. Mas o mundo LÁ fora, o mundo AQUI fora também está perto AQUI dentro. Ele anda forte como o vento e estúpido como o fogo. Cínico como um gato quando pede comida, avassalador como uma traição. Distante como as estrelas pra quem não acredita nelas. Ele precisa de mim. O que eu estou fazendo?

Traga-me de volta os meus pedaços. E junto a eles, monte meu coração que se quebrou. Traga-o de volta aos meus olhos, pois ele se perdeu; e me faça de novo acreditar no lugar em que vivo. O mundo é carente como a sede que deseja saciar-se. Precisa de compaixão. Ele precisa de profundidade, de eternidade. Eu estou cansada como ele. Cansada do vazio e da perdição, mas eu não me cansarei de acreditar de encontrar a paz que eu conheço. Paz real, eterna e pura. Muito maior do que eu sempre desejei. Aonde estava o meu coração? Encontre-o e leia o que está escrito dentro. Ele sempre quis gritar, sonhou em dizer, mas apenas escreveu. Lá estão as palavras e acredite, mais uma vez a melodia está perto. Tão perto que junto com cada palavra, tornam-se um.

Não há letra sem melodia. Mesmo que aparentemente silenciosa, ela soa como música. Como sintonia. Como harmonia e acordes. Mesmo que triste, mesmo que grite melancolia. Ligue a luz assim que encontrar o coração. Não esqueça de ler a verdade que eu sempre acreditei. Leia pra mim e pra você as coisas reais. Elas estão ali, dentro do coração em pedaços.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Olhos fechados que viram


O silêncio indiferente clamou um 'basta'.
A música permanecia tocando com o mesmo brilho, melancolia e paz, mas lá no fundo de sua sensibilidade tudo estava tão distante e próximo. Distante para a sintonia natural e para os sorrisos que saiam tão fáceis, tão livres. E próxima da verdade ou da vontade de não acreditar que sempre esteve certa em suas conclusões abstratas, porém reais.
Depois da clareza impensada, chegaram os remorsos passados, os pedidos para voltar atrás. Mas foram embora, foram passageiros e serviram para lembrá-la de que não é dona de seu próprio tempo. Tempo dela que não é dela. Dela que nunca será. Tempo que tem dono. E ela... é apenas parte do todo que também o tempo se faz presente e participante. É como se ela e o tempo andassem juntos. Ela não pode detê-lo, nem ele ajudá-la. Eles estão no mesmo barco, mas ainda assim o tempo permanece no comando. Ele corre mais do que suas pernas cansadas. Ele voa enquanto ela tenta dar um salto, mas teme. Se os dois cairem na água, provavelmente ele não se afogará. Mas no fundo ele diz e confessa que nem sabe como voltar. Sim, nem o tempo é dono de si mesmo. Mesmo assim ela é inferior ao tempo. E foi inferior à indiferença impensada.
O sofrimento está no apego às coisas do passado. Algumas delas nunca existiram, foram idealizadas e substituídas por sensações e atitudes simultâneas e naturais. Mas o coração procura o que lhe dá prazer. Se o passado foi bonito, a alma vai querer resgatar ou dar continuidade a algo que antes não eram vistos por olhos fechados encantados.

Dessa vez ela não se frustrou com o tempo. O tempo ela tem conhecido, mas o coração alheio é infinitamente mais misterioso que o próprio vento que corre junto com o tempo. É mais malicioso ou incoerente que a tempestade que leva os resquícios de um castelo. É mais tolo que o julgamento sem coesão e mais injusto que o derramar de sangue inocente em guerra.

Ela cansou de explicar, mas o outro coração foi apático, depreciou.

E a indiferença alheia despertou o silêncio. Aquilo que outrora era encantador, tornou-se em perguntas. Apenas perguntas e fechar de olhos. Baixar da cabeça e do som da música que permanecia tocando. Permanecia a melancolia, os olhos fechados, o vento lá fora lembrando que está ao lado do tempo. Permanecia a noite, o silêncio. Virá o futuro inesperado.
Mas a música... mesmo ainda baixa, permanecia tocando lembrando que ainda existem momentos de paz em meio a tanta tempestade.

Aquela música a lembrou que há muito mais valioso, simples, real e duradouro. Aquele som a mostrou que é capaz de ter mais sensibilidade que o próprio coração que a machucou. A melodia lhe trouxe o que aquele coração indiferente não foi capaz de dar, não foi humano o bastante pra soar valorização, ternura, compreensão, prazer, liberdade.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Olhe para todos ao seu redor...


... e veja o que temos feito de nós.

Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: 'tens medo.'
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda.
Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra 'salvação' para não nos envergonharmos de sermos inocentes.
Não temos usado a palavra 'amor' para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.

E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

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Hoje as palavras quiseram expressar o mesmo que esse desabafo de uma das minhas grandes influências, a intensa Clarice Lispector em 'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres'.
É o último romance dela. Esse livro me trouxe um puro tratamento do mundo feminino a respeito da vida tratando-se da personagem principal porque no geral, eu aprendi um pouco da vida.

Antes de qualquer palavra escrita no texto encontra-se uma vírgula, responsável por eu entender como uma história sem começo concreto, o que, sem dúvidas, me deu grande margem para imaginar inúmeros princípios. Já no final da história, Clarice criativamente termina com dois pontos, trazendo a idéia de continuidade, uma história que não acabou por ali. Essa ousadia de fazer com que o leitor veja o mundo e a vida da personagem Lóri existindo antes do livro e conseqüentemente depois, traz percepções diversas e questionamentos. Mas traz também satisfação por podermos 'escrever o próprio final'.

Clarice sempre me surpreendeu. De “Perto do coração selvagem”, conhecendo um pouco mais em “Água viva”, passando pelo seu clássico “A hora da estrela” e agora, chegando em uma “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Percebo claramente seu espírito humanístico em escrever cada história como se fosse de fato, real; seu interessante atrevimento com as palavras; sua sensibilidade com as relações; sua inconformidade com a normalidade e seus extremos com suas oposições: hora ódio, hora amor, hora alegria disfarçada, hora desleal angústia.

Neste romance, não existem 'cerimônias textuais'. Clarice parece não ter a grande preocupação no entendimento literal de suas escritas por parte do leitor, mas no impacto em que sua obra vai causar. Ela escreve com uma liberdade nua e desarmada e isso me fez mergulhar mais a fundo em suas palavras, me permitindo até mesmo conhecer um pouco de seu 'mundo' nos seus próprios textos. Ela escreve com a alma.

Lá existem pedidos de “renda-se” a satisfações misteriosas, “submerja-se” em outros horizontes, “permita-se” um pouco mais. Um romance interessante, com uma compreensão não muito fácil, mas com um riquíssimo jogo de histórias que se unem, tornando o verbo “aprender” algo ainda mais fascinante e necessário do cotidiano.

Mas há algo mais. Todo esse 'clamor' de prazer por aprender algo de útil nessa vida me instiga, me faz querer entender mais o que faço aqui. O que estou fazendo de mim. O que estamos fazendo do nosso próprio universo sem fim.
Muitas vezes nem sabemos o porquê a dor não passa. Somos donos da nossa dor. Construímos nossos sonhos e o nosso 'fechar' de olhos para a nua realidade muitas vezes é capaz de desabar o castelo feito de areia no solo do nosso paraíso humano e imperfeito. Eu quero sonhar o surreal. Eu quero conhecer minha verdade também.
Não temos enxergado o bonde da felicidade passar na frente da porta da nossa casa. Ele parece tão longe, mas está ali, logo depois da entrada do nosso próprio caminho.

É só deixá-lo estacionar.